O contexto
A Ame Digital chegou antes. Enquanto o Pix ainda engatinhava nos bastidores do Banco Central, a Ame já processava transferências. Enquanto o mercado debatia o futuro do cashback, o app fervia de acessos com campanhas que viravam febre — como a do Posto BR, que transformou o abastecimento de combustível numa experiência de engajamento. Era um superapp à frente do seu tempo, com uma cultura igualmente singular: uma empresa feita de pessoas que acreditavam genuinamente no que construíam.
Mas crescimento acelerado tem um custo. E o custo, aqui, tinha nome: fragmentação.
O problema real
Por dentro, a Ame era um ecossistema complexo de partes que não se falavam. Uma porção do app era nativa — iOS e Android com suas próprias stacks e ritmos. Outra porção era webview, onde parceiros operavam seus miniapps com autonomia técnica e visual. Havia ainda a Ame Empresas, a vertical PJ com base de código separada e necessidades próprias de identidade. E, orbitando tudo isso, o ecossistema Americanas, com seu peso e suas expectativas de alinhamento.
Cada time tinha suas prioridades. Cada stack tinha seus padrões — ou a ausência deles. O resultado era um app que crescia em funcionalidade enquanto encolhia em coerência. Para o usuário, a experiência variava dependendo de onde ele estava dentro do próprio app. Para os times, o retrabalho era constante e a velocidade de entrega, comprometida.
O diagnóstico era claro: a Ame precisava de uma fundação. Não apenas de design — mas de uma linguagem comum que atravessasse plataformas, times e culturas diferentes dentro de uma mesma empresa.
Um sistema além do design
Assumi a liderança do time de Design OPS e System com uma convicção que guiou cada decisão desde o início: um design system mal construído resolve o problema errado. Ele vira uma biblioteca bonita que ninguém usa, ou que funciona para uma plataforma e quebra nas outras.
Para a Ame, o sistema precisava ser outra coisa. Precisava ser o elo.
O time que montei e liderei refletia essa ambição: mais de dez desenvolvedores cobrindo todas as stacks — iOS nativo, Android nativo e Web — mais dois designers seniores e PMs. Não era um time de design. Era um time de produto, com a missão de construir infraestrutura que outros times consumiriam para mover mais rápido e com mais consistência.
A decisão técnica central foi a arquitetura de tokens. Ao equalizar os tokens de design entre plataformas — cores, tipografia, espaçamentos, estados — criamos uma camada de linguagem que existia acima das diferenças de stack. Um botão primário na webview deveria se comportar e parecer o mesmo que um botão nativo no iOS. Não porque os códigos fossem iguais, mas porque partiam do mesmo contrato semântico.
Para resolver a dualidade PF e PJ, aplicamos temas dentro do sistema. A Ame Pessoas e a Ame Empresas mantinham suas identidades próprias sem precisar de sistemas paralelos — o Mondrian acomodava as duas dentro de uma mesma arquitetura, com variações controladas que preservavam coerência sem apagar diferença.
O momento de virada
Todo projeto de design system tem um momento crítico: aquele em que ele deixa de ser iniciativa do time de design e passa a ser prioridade da empresa. Na Ame, esse momento foi construído — não esperado.
Apresentei para lideranças de desenvolvimento, produto e negócios um cenário concreto: o que seria possível construir, com qual velocidade e com qual qualidade, se a fundação fosse feita de uma vez por todas e da forma correta. Não era uma apresentação sobre design. Era uma apresentação sobre capacidade de entrega, sobre custo de retrabalho, sobre o que a fragmentação atual estava custando em tempo e em experiência do usuário.
A partir dali, o sistema ganhou outro status. Deixou de ser um projeto paralelo e passou a ser infraestrutura estratégica — com time dedicado, roadmap próprio e alinhamento direto com as lideranças.
Resultados
Sistema multistack unificando iOS nativo, Android nativo e Web (webview) com tokens equalizados entre plataformas
Temas implementados para suportar simultaneamente Ame PF e Ame Empresas dentro de uma mesma arquitetura
Time cross-funcional de mais de 10 desenvolvedores e 2 designers operando como produto independente
Adesão das lideranças de desenvolvimento, produto e negócios — transformando o DS em prioridade estratégica da empresa
Aceleração de entregas para times parceiros e miniapps, com redução de inconsistências visuais e técnicas no superapp
Resultados
O Super App que respira
Transformamos uma ferramenta de pagamento em um hub de estilo de vida financeiro:
Redução da Taxa de Abandono: Jornadas mais limpas resultaram em menos fricção no checkout.
Aumento na Descoberta de Serviços: Através da nova arquitetura, usuários que entravam apenas pelo cashback passaram a consumir outros serviços financeiros do ecossistema.
Consistência de Produto: Estabelecemos um padrão de design que permitiu que o time de engenharia e produto lançasse novas verticais com 40% mais agilidade.
Design em
Ame
A Ame Digital era, antes de tudo, uma empresa de cultura. O cuidado com pessoas — colaboradores, usuários, parceiros — permeava as decisões de produto e criava um ambiente onde design tinha voz e espaço para operar com autonomia. Foi nesse contexto que o trabalho de sistemas ganhou uma dimensão que vai além do técnico: construir um design system na Ame foi também um exercício de escuta, de alinhamento e de traduzir complexidade em algo que times inteiros pudessem abraçar como seu.

