Global System, Local Soul: O desafio multi-brand no Carrefour Brasil

Global System, Local Soul: O desafio multi-brand no Carrefour Brasil

O contexto

O Carrefour é uma das maiores redes de varejo do mundo. Com presença em dezenas de países e um portfólio de marcas que vai muito além das prateleiras do supermercado — passando por serviços financeiros, aluguel de veículos e submarcas próprias — a empresa mantém um design system global chamado Marcel. Um sistema criado para dar coerência a essa vastidão.

O Brasil, porém, é um caso à parte.

O Grupo Carrefour Brasil opera com uma complexidade de marcas que poucos mercados replicam. O Carrefour, o Atacadão e o Sam's Club convivem sob o mesmo guarda-chuva corporativo — mas com identidades, públicos e posicionamentos radicalmente distintos. O Atacadão, por exemplo, é uma marca de força nacional que não tem o mesmo peso fora do Brasil. E o Sam's Club, curiosidade geopolítica do varejo global, pertence ao Walmart em todo o mundo — exceto aqui, onde é uma bandeira do Carrefour.

Essa pluralidade tornava o Brasil um dos mercados mais desafiadores para o Marcel. E foi exatamente por isso que se tornou o lugar onde o sistema precisava evoluir.

O desafio

Assumi sozinho a responsabilidade pelo Brasil na camada global do Marcel. Não havia time — havia um mandato: fazer o sistema global funcionar para a realidade local, sem quebrar a coerência que o Marcel precisava manter em escala mundial.

O problema era estrutural. O Marcel foi concebido para suportar a marca Carrefour e suas extensões globais. Mas no Brasil, marcas como o Sam's Club e o Atacadão tinham diretrizes próprias, histórias visuais consolidadas e times de produto que precisavam de autonomia para construir experiências fiéis às suas identidades — sem abrir mão da fundação compartilhada.

A pergunta central era: como fazer uma marca americana, originalmente do Walmart, "morar" dentro do design system de seu concorrente global — mantendo sua identidade intacta e operando com a mesma fluidez que qualquer outra marca do grupo?

A resposta não estava nos componentes. Estava na arquitetura.

A solução: duas camadas, uma fundação

A proposta que desenvolvi e apresentei ao time global foi uma arquitetura de temas em duas camadas.

A primeira camada, global, contemplava os elementos compartilhados entre países — submarcas Carrefour, serviços como aluguel de veículos, e tudo que precisava de consistência independente de onde o usuário estivesse. Essa camada era território do Marcel canônico, com pouca variação.

A segunda camada era local. Cada país poderia ter seus próprios temas — variações controladas que acomodavam as especificidades regionais sem fragmentar o sistema. No Brasil, isso significava temas independentes para o Carrefour, o Atacadão e o Sam's Club. Cada um com sua paleta, sua tipografia e seus ajustes semânticos de marca — mas todos herdando a estrutura de tokens, os padrões de componentes e a lógica de composição do Marcel.

Para o Sam's Club, o processo envolveu ajustes semânticos precisos: traduzir as diretrizes de uma marca americana para dentro de um sistema europeu, garantindo que a identidade visual do clube de compras se mantivesse reconhecível para o consumidor brasileiro sem gerar conflito com a arquitetura global. Para o Atacadão, o desafio era diferente — dar visibilidade e robustez a uma marca de força local que o sistema global simplesmente não havia sido projetado para contemplar.

A negociação com o time global foi parte essencial do trabalho. Cada extensão precisava ser justificada não apenas do ponto de vista de design, mas do ponto de vista de governança — garantindo que o modelo de duas camadas não abrisse precedente para fragmentações incontroláveis em outros mercados.

O impacto além do Brasil

O modelo foi adotado globalmente.

O que começou como uma solução para o mercado brasileiro tornou-se a arquitetura de referência para outros países dentro do ecossistema Carrefour. A lógica de temas por região — global para o que é compartilhado, local para o que é específico, provou ser o equilíbrio que o Marcel precisava para escalar com coerência em mercados com realidades tão distintas quanto o Brasil, a França ou a Argentina.

Uma proposta, construída por uma pessoa, a partir de uma necessidade local. Adotada por um sistema global.


Resultados

Arquitetura de temas em duas camadas proposta e implementada — global para submarcas Carrefour, local para variações por país

  • Três marcas brasileiras — Carrefour, Atacadão e Sam's Club — operando com identidades próprias dentro de uma fundação compartilhada

  • Adoção global do modelo como referência de governança para outros mercados do grupo

  • Solução de convivência de marca para o Sam's Club Brasil — única operação do mundo onde a bandeira pertence ao Carrefour e não ao Walmart

  • Representação solo do Brasil na camada global do Marcel, com autonomia para propor e negociar extensões arquiteturais

Design em
Carrefour

Fazer design num grupo varejista global é operar na interseção entre estratégia de marca, restrições corporativas e realidade de mercado. No Carrefour Brasil, isso significava representar um país inteiro numa conversa global — defender as particularidades locais sem perder o fio da coerência sistêmica. Um trabalho que exigiu tanto domínio técnico de sistemas quanto capacidade de influenciar sem hierarquia, negociar sem impor e propor sem fragmentar.

©Donadelli. 2026

©Donadelli. 2026

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